sexta-feira, 17 de junho de 2011

Solidões

imagem da net

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Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Cesário Verde

quinta-feira, 16 de junho de 2011


Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira*, in “Obra Poética”


referência fundamental da história da literatura e da cultura do século XX: David Mourão-Ferreira, o autor multifacetado cuja morte se assinala hoje.

David Mourão-Ferreira (24/02/1927-16/06/1996) Poeta, crítico, ensaísta, contista, novelista, romancista, cronista, dramaturgo, tradutor, conferencista, nasce para a literatura em 1945, ano em que publica os seus primeiros poemas na revista Seara Nova.

Considerado o poeta do amor e da mulher levantou o véu à própria complexidade da sua narrativa, sinal de uma paixão madura por um ofício que o permitia olhar no tempo. Sintoma dessa realidade eram os milhares de livros nas estantes da sua casa que integravam o próprio espaço com íntima familiaridade e cumplicidade.

Morreu em 1996, em Lisboa, sem deixar de escrever:

Antes de sermos fomos uma sombra

Depois de termos sido que nos resta

É de longe que a vida nos aponta

É de perto que a morte nos aperta.

David Mourão-Ferreira, Os Ramos e os Remos

preservo ainda hoje um manuscrito onde David Mourão-Ferreira deseja “a realização dos meus sonhos e projectos...



terça-feira, 14 de junho de 2011

cuidado[s] fisico[s] e execução

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"... a manutenção de um sítio exige simultaneamente cuidado fisico e a execução de actos que têm por objectivo cuidar do espirito que nele se aloja. Sem estes procedimentos de manutenção, o sitio permanece, mas diz-se que perde o espírito nele contido. Diz-se então que morreu e pensa-see que também morreram todos os que partilham características físicas e conexões espirituais com ele. Assim, para prolongar o bem-estar da vida, os sítios devem ser cuidados e os ritos executados para manter vivos os poderes dos sonhos neles aprisionados."


Helen Payne*

* antropologa, autora de "Rites for sites or sites for rites? The dynamic of women's cultral life in the musgraves, 1989

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa 123

"a minha pátria é a Língua Portuguesa" escreveu FP


Grandes Mistérios Habitam


Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

Fernando Pessoa*

Fernando Pessoa (13 Junho 1888-30 Novembro 1935)