quinta-feira, 16 de junho de 2011


Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira*, in “Obra Poética”


referência fundamental da história da literatura e da cultura do século XX: David Mourão-Ferreira, o autor multifacetado cuja morte se assinala hoje.

David Mourão-Ferreira (24/02/1927-16/06/1996) Poeta, crítico, ensaísta, contista, novelista, romancista, cronista, dramaturgo, tradutor, conferencista, nasce para a literatura em 1945, ano em que publica os seus primeiros poemas na revista Seara Nova.

Considerado o poeta do amor e da mulher levantou o véu à própria complexidade da sua narrativa, sinal de uma paixão madura por um ofício que o permitia olhar no tempo. Sintoma dessa realidade eram os milhares de livros nas estantes da sua casa que integravam o próprio espaço com íntima familiaridade e cumplicidade.

Morreu em 1996, em Lisboa, sem deixar de escrever:

Antes de sermos fomos uma sombra

Depois de termos sido que nos resta

É de longe que a vida nos aponta

É de perto que a morte nos aperta.

David Mourão-Ferreira, Os Ramos e os Remos

preservo ainda hoje um manuscrito onde David Mourão-Ferreira deseja “a realização dos meus sonhos e projectos...



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